18/06/2017

memórias

     Percebi que nos últimos tempos minha pior inimiga tem sido minha memória. Não sei, exatamente, a que se deve isso. Um punhado de coisas excessivas na minha cabeça nos últimos dias ou apenas um cartão de memória com poucos Gigabytes no meu cérebro.
     Ontem eu estava com duas amigas no metrô relembrando dias em que fazíamos circo juntas. Essas com certeza são umas das minhas lembranças preferidas da vida, repletas de alegria, cor e nostalgia. Em determinado momento, eu queria só fechar os olhos e me transportar para aqueles dias. Mas então percebi o quão fragmentado é meu registro. Pequenas cenas de um ou dois segundos, imagens mentais de sorrisos, sentimentos que, na época, eu sentia no meu peito, mas que hoje mal consigo repassar na memória.
     Bom seria se esse fosse um fato isolado. Penso em como não lembro nada da vastidão de conteúdos que estudei para o vestibular. Em como eu fiquei tão emocionada vendo o show da minha banda preferida que parece que meu cérebro decidiu dar reset completo. Conversas que poderiam ter virado um livro, mas que deixei as traças da minha falha memória devorar. Pessoas que hoje eu não lembro da voz, livros que li e não lembro da história. Coisas que eu nem lembro que esqueci.
     Acredito que esse seja um dos meus mais profundos medos: não conseguir registrar bem minhas lembranças por saber que, no final, isso é o que dita nossa história. Isso que nos dá um vislumbre para saber quem somos e o que nos tornamos. Engraçado que existem coisas que eu arrancaria meu cérebro sem anestesia para esquecer. Outras que nem com as mais profundas reflexões eu consigo lembrar.
     O que, tristemente, me conforta é saber que talvez eu não seja a única. Essa talvez seja a explicação do por que nos tornamos tão obcecados com fotos, selfies e álbuns virtuais: a necessidade de registrar o que sabemos que nossas memórias vão esquecer. Criar gatilhos que nos levem de volta a pessoas, momentos e sentimentos que nunca mais voltarão. São post-its mentais para sabermos “ops, eu vivi isso aqui”.
     Mesmo com esse constante incômodo, eu acho que a vida é assim mesmo. As pessoas nascem, vivem e esquecem. Lembram do essencial até que a idade lhes tomem isso (e é por isso que o Alzheimer é uma das doenças mais cruéis que poderiam acometer um ser humano). 
Um grande “sad, but true” na nossa jornada.
     Cabe a mim apenas saber que um dia eu não lembrarei da garota que está sentada escrevendo de madrugada – mas que saberei que ela chegou a algum lugar. Ela apenas esqueceu de deixar migalhas pelo caminho. Cabe também registrar às pessoas que amo que eu as amo por que elas fizeram da minha vida um lugar muito melhor e lutaram por um lugar nas minhas lembranças felizes, mesmo que eu me esqueça de muitas delas.
Infelizmente, não há muito que eu possa fazer contra isso além de desejar que fosse diferente. 
     


E por fim, só como uma notinha de rodapé, quero dizer ao Facebook e seu diário “ Você tem lembranças para recordar hoje ” para ir à merda. Eu estou reclamando pelas minhas memórias, mas você não tem que me lembrar o quão trouxa eu era no ensino médio, beleza? 


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